O Pânico na Contemporaneidade

O ataque de pânico é sobretudo um ataque físico. Ele é sentido – e sentido intensamente - no corpo físico.

Tudo estava indo bem, quando de repente, “algo”, que não estava presente, adentra pelos recônditos da subjetividade, e começa a se instalar no corpo físico, trazendo sensações diversas, porém, peculiares: taquicardia incontrolável, aperto no peito e na garganta, falta de ar, sudorese, inquietude corporal, tremor nas pernas, tremor no corpo todo, ansiedade de queda, tontura, vertigem, enjôo, diarréia, necessidade de urinar, forte contensão muscular e muito cansaço (PEREIRA, 2003).

Isso não quer dizer que todos esses sintomas físicos venham de uma só vez, para todas as pessoas que sofrem um ataque de pânico. Mas uma certa combinação dos mesmos está sempre presente.

Vamos supor que esse ataque aconteça durante uma reunião social. Se a pessoa é do tipo que procura manter sempre o controle, pode tentar suportar essa situação insólita por algum tempo, continuando a conversar com as outras pessoas. Porém, ela sabe que experimenta algo muito terrível por dentro. Não vai demorar muito, a sua forte inquietação corporal e palidez súbita, vão transparecer que algo realmente não vai nada bem.

Uma outra faceta que acompanha os sintomas é a certeza de que “Vou morrer!”, ou seja, sentimentos de fragmentação, esfacelamento, despersonalização, desrealização.

Depois de um primeiro ataque, tudo o que a pessoa acometida, abatida e desmoralizada por tamanha situação bizarra deseja, é evitar um possível episódio futuro.

Que grito é esse que o corpo humano está expressando?

Alguns autores procuram seguir uma linha interpretativa, ligando esses sintomas às fases do desenvolvimento da criança, mas precisamente à angústia de separação da mãe ou da pessoa que desempenhou o papel de cuidadora.

É com essa visão, associada à outros traumas e conflitos existes no inconsciente da pessoa, bem como ao contexto social atual, que apoiamos o nosso trabalho clínico.

Outras abordagens vão se reportar à questão da cognição, e na presença de pensamentos disfuncionais que assolam a percepção, criando um verdadeiro caos no organismo. Nas intervenções da TCC (Terapia Cognitivo Comportamental), com seus conceitos sobre a constituição de um sistema de crenças subjacente, que encontraremos formas de eliminar essa disfuncionalidade.

É importante salientar, que há uma diferença qualitativa entre o ataque de pânico e outros tipos de ataque de ansiedade e angústia. Estes diferem daquele por possuírem um objeto ameaçador num futuro próximo, que poderá colocar em risco a integridade do organismo. Já no ataque de pânico, o perigo está no presente e está “engolindo" o sujeito (PEREIRA, 2003).

Esse perigo iminente, é descrito por muitas pessoas acometidas de um ataque de pânico como, “essa coisa”, “esse troço”. Dá a impressão como se algo estranho, de fora, invadisse subitamente o sujeito, e começasse a destruí-lo.

De fato, fora do sujeito, tudo indica não haver nenhum perigo real. Parece que, parte do seu próprio organismo passa a ser visto como algo estranho e ameaçador.

Sem prejuízo das interpretações existentes, na tentativa de se chegar a alguma compreensão sobre o fenômeno do pânico, não podemos deixar de considerar a questão da constituição do sujeito na contemporaneidade. Sujeito esse,  a mercê do vazio, da solidão e do desamparo.

Nesse mundo da globalização, onde as demarcações são tênues, e as referências tão fluídicas e mutantes; onde os laços afetivos são escassos e efêmeros; onde as posições de trabalho são cada vez mais inseguras e mutantes; teria esse sujeito se constituído precariamente através de um outro, incapaz de lhe conferir um marco e um chão para se apoiar, ou de um “holding” para se estruturar?

Seria o transtorno de pânico, uma forma desesperada desse frágil sujeito da atualidade, gritar por demarcações e encontrar em fortes sintomas no corpo físico, um jeito de se aterrar, de encontrar alguma realidade, de encontrar algum limite para poder existir?

Como diz o poema de Carlos Felipe Moisés, citado pelo psicanalista Mauro Hegenberg (2013), ao se referir a possível constituição do sujeito da atualidade:

 

O ventre é quase nada,

pura transparência

onde se escondem

o dorso e seus andaimes.

Não tem entranhas.

A pele

de tão fina

já não é:

limita

semovente

o nada de fora

e o quase nada

de dentro”

(HEGENBERG, 2013, pág. 61)

 

Alexandre J.Paiva

Psicoterapeuta Reichiano

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Referências bibliográficas:

HEGENBERG, M. Borderline. 7A ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.

PEREIRA, M.E.C. Psicopatologia dos ataques de pânico. São Paulo: Escuta, 2003.

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